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Memórias do subsolo

É um vício antigo, assumido ainda criança: ao terminar de ler um livro, tenho sempre outro na iminência, esperando às vezes durante semanas na escrivaninha para ser aberto. Em períodos escassos para a leitura, os livros acabam se acumulando e, não raro, pego um, outro, na dúvida se realmente é o livro para aquela hora.

Em momentos assim, quando nada parece satisfazer, recorro a Dostoiévski com a certeza do prazer garantido. Já fiz até a sandice de pegar o carro em um sábado à noite, andar cerca de 20 quilômetros até a livraria Canto do Livro, no Shopping Ponteio, para comprar um livro do autor. Explico: nesta livraria, está visível aos olhos e dedos a coleção da Ed. 34 com vários títulos do autor russo, incluindo romances, novelas, contos, ensaios. Canto do Livro é uma pequena livraria, de muito bom gosto, na qual você acha preciosidades literárias com uma facilidade impressionante.  

Ao contrário das badaladas megastors, cujos balcões apresentam os lançamentos mais recentes com aquelas discutíveis listas dos mais vendidos orientando os leitores. Listas geralmente lideradas por best-sellers, livros de auto-ajuda, incluindo títulos imbatíveis como A ciência de ficar rico (é audiolivro, não precisa nem ler)  e 365 maneiras de enlouquecer juntos na cama (não é videolivro).

Voltando a Dostoiévski, acabo de ler Memórias do subsolo, São Paulo: Ed. 34, 2000. A novela, publicada em 1864, é narrada em primeira pessoa por um anônimo. O personagem revela com ironia e desprezo a amargura em que vive. Dostoiévski usa o narrador para caracterizar a decadência de uma geração. Na introdução, o autor alerta o leitor:

Tanto o autor como o texto destas memórias são, naturalmente, imaginários. Todavia, pessoas como o seu autor não só podem, mas devem existir em nossa sociedade, desde que consideremos as circunstâncias em que, de um modo geral, ela se formou. O que pretendi foi apresentar ao público, de modo mais evidente que o habitual, um dos caracteres de um tempo ainda recente. Trata-se de um dos representantes da geração que vive os seus dias derradeiros.

Essa geração derradeira é representada por um homem sem esperanças a respeito do mundo e de si mesmo. Começa sua história apresentando-se:

Sou um homem doente... Um homem mau. Um homem desagradável. Creio que sofro do fígado.

Muito antes de Freud, Dostoiévski colocou na mente de seu personagem indagações perturbadoras. O narrador de Memórias do subsolo reflete:

Existem nas recordações de todo homem coisas que ele só revela aos seus amigos. Há outras que não revela mesmo aos amigos, mas apenas a si próprio, e assim mesmo em segredo. Mas também há, finalmente, coisas que o homem tem medo de desvendar até a si próprio, e, em cada homem honesto, acumula-se um número bastante considerável de coisas no gênero. E acontece o seguinte: quanto mais honesto é o homem, mais coisas assim ele possui. Pelo menos, eu mesmo só recentemente me decidi a lembrar as minhas aventuras passadas, e, até hoje, sempre as contornei com alguma inquietação. Mas agora, que não apenas lembro, mas até mesmo resolvi anotar, agora quero justamente verificar: é possível ser absolutamente franco, pelo menos consigo mesmo, e não temer a verdade integral?

Essa dúvida fecha o longo desabafo inicial do personagem, quando ele resolve contar a sua história. Uma história sobre personagens do subsolo (Erico Verrissimo fez uma incursão parecida em Noite). Talvez nem uma história, crueldades do mundo jogadas no papel. Narradas desse jeito profundo e simples que fazem de Dostoiévski porto-seguro na escolha de uma boa leitura.

Agora está nevando, uma neve quase molhada, amarela, turva. Ontem nevou igualmente e dias atrás, também. Tenho a impressão de que foi justamente a propósito da neve molhada que lembrei esse episódio que não quer agora me deixar em paz. Pois bem, aí vai uma novela. Sobre a neve molhada.



Escrito por Robertson Mayrink às 17h02
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George Lucas e a saga Star War

A carreira de George Lucas está associada irremediavelmente a Star Wars. Ao completar o sexto filme da série para o cinema, o diretor afirmou que não haveria mais filmes, apesar de admitir que concebeu a história como uma saga de nove episódios. As possibilidades abertas no decorrer dos seis filmes de longa-metragem estão servindo de base para outros projetos de George Lucas.

 

Nesta sexta-feira, estréia na televisão dos Estados Unidos a série animada Star Wars: The Clone Wars. A história narra fatos que aconteceram entre os filmes O ataque dos clones (2002) e A vingança dos Sith (2005). Na série feita para a televisão, Obi-Wan Kenobi e Yoda lideram um exército de clones na luta contra as forças do lado negro. Como a história antecede o surgimento de Darth Vader, Anakin Skywalker ainda estará a serviço das forças do bem.

 

Completando os projetos, George Lucas revela que está a caminho uma série de TV com atores de verdade, com produção marcada para 2009: “Guerra nas estrelas é a saga de Anakin Skywalker/Darth Vader, dos seus 10 anos até sua morte. Não há o que se fazer além disso. A série de TV não tem a ver com a história dos Skywalker. Passa-se entre os episódios III e IV e mostra outras pessoas, de níveis mais baixos, que nunca apareceram nos filmes e mal sabem se estão sob o domínio da República ou do Império.” – entrevista concedida a Megazine – Jornal O Globo.

 

O episódio III -  A vingança dos sith (2005) é o último filme exibido nos cinemas e narra o surgimento do vilão Darh Vader. O episódio IV - Uma nova esperança é o primeiro filme lançado nos cinemas, em 1977, ainda com o nome Star Wars. Resumindo os fatos principais: A vingança dos sith termina com o nascimento dos gêmeos Luke e Léa Skywalker e o pai deles, Anakin, assumindo definitivamente o seu lado negro da força, originando aquele que é considerado um dos maiores vilões da história do cinema: Darth Vader. Entre os dois filmes há um intervalo de cerca de 20 anos, já que Uma nova esperança narra o começo da luta empreendida entre o jovem Luke e Darth Vader.

 

Se levarmos em consideração a promessa de George Lucas, a série de TV que se passa entre estes dois episódios não vai mostrar os Skywalker, apesar de Darth Vader já existir. Difícil acreditar que o autor da saga vai deixar de lado seus principais personagens, principalmente quando as pesquisas de opinião começarem a aparecer com uma informação que todo fã de Star Wars sabe: o público quer ver mesmo, em toda esta história interminável, é Darth Vader.



Escrito por Robertson Mayrink às 20h17
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O cavaleiro das trevas

Batman está no topo do edífico em Hong Kong. A visão do espectador é do alto: os imensos prédios perfilando-se e apenas o personagem negro parado no parapeito do terraço, como se olhando o precípicio em meditação. De repente, ele solta-se no ar em queda livre, a câmera acompanhando o homem que em segundos abre as imensas asas e quase se transforma em morcego. Ele não vôa, plana no ar contornando edifícios luminosos, passando por imensas vidraças refletindo a noite até entrar violentamente pela janela em busca de sua vítima.

Essa sequência, Batman voando na noite, repete-se filme após filme e é, para mim, sempre a imagem mais fascinante deste super-herói. Planando sobre a cidade, sem super-poderes, Batman traduz o sonho de dezenas de visionários que um dia acreditaram poder voar apenas adapatando asas ao corpo, como o alfaiate parisiense que, em 1912, tentou voar da Torre Eiffel usando uma capa como asas. Mergulhou para a morte. Batman mergulha para o nosso imaginário, usando o maior recurso de sonho e fantasia de todos os tempos: o cinema.

Só essa sequência serviria para exemplificar porque gostei tanto de Batman – o cavaleiro das trevas (The dark knight, EUA, 2008), direção de Christopher Nolan. Mas o filme tem muito mais: é a melhor adaptação para o cinema deste personagem criado por Bob Kane em 1939 para os quadrinhos. Supera o primeiro Batman (1989), de Tim Burton, e Batman Begins (2006), do próprio Christopher Nolan. A expressão mais próxima que encontro para definir O cavaleiro das trevas é arrebatador. Nesses tempos de cinemas multiplex abarrotados de jovens barulhentos e baldes de pipoca – cujo irritante som de bocas mastigando vem acompanhado de um cheiro impregnante – raras vezes vi um cinema tão silencioso, compenetrado, absorvido pelo duelo que se estende entre cerca de duas horas e meia entre Batman e o Coringa.

Este é o grande mérito do novo Batman: a ação, repleta de efeitos especiais, acontece em vários momentos, mas não é a base do filme. Os roteiristas Christopher Nolan e David S. Goyer investiram muito mais no aspecto humano, desenvolvendo a característica psicológica que move Batman deste a sua criação: o caráter dúbio, resvalando entre o bem e o mal; entre ações nobres e a violência irrefreável; entre a vontade de salvar Gotham Gity e entregar a cidade aos bandidos; entre ser Bruce Wayne, o playboy milionário, ou o Batman que age como herói mas é visto pela população como justiceiro, temido como os próprios bandidos. Nesse sentido, o final de filme revela o que se pode esperar.

Ao contrário do Superman, capaz de fazer o mundo girar em outro sentido para trazer sua amada do destino inevitável, Batman tem os limites da humanidade. Logo no começo do filme, percebemos que ele está perdendo a sua amada da forma mais mortal e irreversível: para um outro homem. Não pode fazer nada, a não ser, como em algumas sequências, deixar fluir a raiva que carrega deste que viu seus pais sendo assassinados.

É um filme violento, cruel, movido pelo lado obscuro do ser humano. O Coringa de Heath Ledger não é engraçado: é sádico e irônico, de uma maldade natural disfarçada nas histórias que inventa a seu próprio respeito. Coringa passa o filme em busca de um único objetivo: fazer com que Batman finalmente revele a sua face do mal, transforme-se de vez no cavaleiro das trevas. Para quem já viu o filme ou conhece a história dos personagens, esse objetivo acaba se concretizando no nascimento do personagem “duas caras”, momento em que Batman toma consciência da inutilidade de sua saga e reconhece seu destino: um homem constantemente em conflito com seus limites.

Toda essa complexidade psicológica sustenta-se em um personagem que é a própria história: Gothan City. Simbolicamente, Gotham City representa a história de várias cidades e suas populações que vivem também nesse limite. Na idade média, pessoas comuns que cuidavam de seus filhos, aravam a terra, dormiam de consciência tranquila ao por-do-sol, aglomeravam-se na Praça Mayor, em Madri, em êxtase ante os julgamentos e execuções da inquisição. As mesmas pessoas que trabalham diariamente respeitando as leis são as que clamam por justiça com as próprias mãos e juntam-se em delírio coletivo diante de uma delegacia para linchar um criminoso – casos comuns no Brasil.

Gothan City é essa cidade: entregue aos bandidos, dominada pela violência, a justiça em estado permanente de corrupção. O Comissário Gordon – único personagem movido pelo bem em toda a história – não consegue distinguir policiais de bandidos nem mesmo entre seus homens mais próximos. O espectador nunca sabe de qual rosto ingênuo da cidade vai irromper o mal, vai surgir o vilão do próximo filme. Mesmo em momentos nobres, como no duelo psicológico dos dois barcos, sabe-se que no fim o mal da cidade prevalece.

Talvez a única salvação para Gothan City e para o próprio Batman esteja nos olhos do filho do Comissário Gordon, quando ele vê, com esperança, Batman correr com sua fantástica moto para as trevas.  

 

Batman – o cavaleiro das trevas (The Dark Knight, EUA, 2008)
Direção: Christopher Nolan
Roteiro: Jonathan Nolan e Christopher Nolan, baseado em estória de Christopher Nolan e David S. Goyer e nos personagens criados por Bob Kane
Produção: Christopher Nolan, Charles Roven e Emma Thomas
Música: James Newton Howard e Hans Zimmer
Fotografia: Wally Pfister
Christian Bale (Bruce Wayne/Batman)
Michael Caine (Alfred Pennyworth)
Heath Ledger (Coringa)
Gary Oldman (Tenente James Gordon)
Aaron Eckhart (Harvey Dent)
Maggie Gyllenhall (Rachel Dawes)
Morgan Freeman (Lucius Fox)
Eric Roberts (Salvarote Maroni)
Cillian Murphy (Dr. Jonathan Crane/Espantalho)
Anthony Michael Hall (Mike Engel)
Monique Curnen (Detetive Ramirez)
Nestor Carbonell (Prefeito)
Joshua Harto (Reese)
Colin McFarlane (Comissário Gillian B. Loeb)
Melinda McCraw (Barbara Gordon)
Nathan Gamble (James Gordon Jr.)



Escrito por Robertson Mayrink às 10h44
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Cine Bogart

Tirei essa foto no centro de Madri. A princípio, seduzido apenas pelo nome, talvez uma homenagem a um dos meus atores favoritos. Agora, pesquisando na Internet, descubro que o Cine Bogart é uma das inúmeras preciosidades da capital espanhola. O prédio, considerado um dos mais belos teatros da cidade, foi construído em 1906 para sediar o Salón Madrid. Depois deu lugar ao cinema até ser abandonado, história que se repete pelo mundo afora com antigos teatros e cinemas.

Em 2006, um grupo de ativistas ocupou durante dias o prédio abandonado, tentando chamar a atenção para o crime especulativo imobiliário que atinge impiedosamente o patrimônio cultural. Não consegui informações sobre as repercussões do ato, sei apenas que o cinema permanece fechado.

Restou apenas a fachada? E essa placa charmosa que seduziu meu olhar à distância. Cine Bogart: um cinema que eu gostaria de ter freqüentado.

 



Escrito por Robertson Mayrink às 21h36
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Férias

Uma das atividades mais regulares de Machado de Assis foi como cronista. Escrevia para jornais do Rio de Janeiro nos mais diversos estilos. Mas sempre com o tom irônico, sarcástico, refletidos em textos criticamente observadores do cotidiano, dele mesmo e do alheio. Em crônica editada no livro Bons dias! & Notas Semanais, Machado de Assis recria a linguagem formal das repartições públicas, como se publicasse um requerimento de férias, encaminhado por um “suposto funcionário”:

BONS DIAS!

Recebi um requerimento, que me apresso em publicar com o despacho que lhe dei:

(...)

Mas vamos ao pedido. O que eu impetro da bondade de V. Exª (se está na sua alçada) é uma licença por dous meses, ainda que seja sem ordenado; mas com ordenado seria melhor, porque há despesas a que acudir, a fim de ir às águas de Caxambu. Seria melhor, mas não faço questão disso; o que me importa é a licença, só por dous meses; no fim deles verá que volto robusto e disposto para tudo e mais alguma cousa.

Peço pouco, apenas um pouco de descanso. Deus, feito o mundo, descansou no sétimo dia. Pode ser que não fosse por fadiga, mas para ver não era melhor converter a sua obra ao caos; em todo caso a Escritura fala de descanso, e é o que me serve. Se o Supremo Criador não pode trabalhar, sem repousar um dia depois de seis, quanto mais este criado de V. Exª?

 

(...)

 

O despacho foi este:

 

Conquanto o suplicante não junte documentos do que alega, é, todavia, de notoriedade pública o seu zelo e prontidão em bem servir a todos. A licença, porém, só lhe pode ser concedida por um mês, embora com ordenado (...). Se tem trabalhado muito, é preciso dizer, por outro lado, que o trabalho é a lei da vida e que sem ele o suplicante não teria hoje a posição culminante que alcançou e na qual espero que se conservará honrosamente por longos anos, como todos havemos mister. Lavre-se portaria, dispensados os emolumentos.

 

Boas noites.

 

Graças às leis trabalhistas, esses “pedidos de licença” são há muito dispensáveis. Basta esperar as férias, com a ansiedade natural, e dizer adeus ao trabalho por uns meros 20 dias, no meu caso atual.  

 

Entro de férias, a partir de hoje. O blog volta a ser atualizado na primeira semana de agosto.



Escrito por Robertson Mayrink às 13h38
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Maratona de filmes

Durante essa semana, fiz uma imersão na locadora de DVD, colocando em dia alguns filmes que ficaram para trás. Alguns comentários dos filmes a que assisti.

 

Piaf – um hino ao amor (La Môme, França/República Tchec/Inglaterra, 2007), de Olivier Dahan.

Cinebiografas concentram-se nos dramas pessoais da personalidade. O público é atraído muito mais pela vida nada comum dos biografados do que pela carreira artística. Piaf – um hino ao amor conta a vida de Edith Piaf, famosa cantora francesa. A única música que eu conhecia da cantora é La vie en rose, através da gravação maravilhosa de Louis Armstrong e de um remix feito por Grace Jones de que gosto muito. A história do filme foi uma surpresa para mim: a infância miserável da cantora, os graves problemas de saúde, o começo de carreira como cantora de rua em troca de moedas, o envolvimento com bebida e drogas, alguns romances, as músicas. Não gostei nem do filme nem das músicas. Piaf abusa de outro clichê de cinebiografias: contar a história ao avesso. O filme vai e volta no tempo, misturando datas e lugares e deixa por conta do espectador a sofrível tentativa de ligar os fatos contando apenas com aquelas legendas indicativas de lugar e data. Lá pelo meio do filme, fui à Wikipédia ler a biografia da cantora e aí sim entendi algumas passagens. Sempre que vejo filmes com essas montagens afetadas, sinto falta de uma boa história contada em cronologia linear.

  

Conduta de risco (Michael Clayton, EUA, 2007), de Tony Gilroy.

Conduta de risco recebeu sete indicações ao Oscar deste ano. Exagero. Histórias de advogados costumam ser muito chatas. No filme, George Clooney trabalha em uma das maiores firmas de advocacia de Nova Iorque. Uma empresa, cliente da firma, está envolvida em processos milionários devido ao uso de herbicidas que provocaram doenças e mortes. O principal advogado da firma de Clooney resolve revelar os segredos da empresa, passando para o lado das vítimas. O filme retrata a corrupção, disputa pelo poder no meio empresarial e entre os advogados, cifras milionárias envolvendo esses negócias sujos (chega-se ao assassinato), crises pessoais vividas pelo personagem principal (igual a tantos outros filmes do gênero). Com um pouco de paciência para entender as diversas referência que são passadas ao espectador, Conduta de risco pode até ser classificado como um bom filme. Mas paciência não é a minha virtude nessas vésperas de férias. 

 

Senhores do crime (Eastern promises, EUA, 2007), de David Cronenberg.

Assistir a um filme de David Cronenberg exige um preparo estomacal. Acho o diretor exageradamente sanguinário e inescrupoloso nas imagens que expõe ao espectador (quem conseguiu ver A mosca, entende). Senhores do crime é até um filme bem comportado nesses aspectos. A história da máfia russa, envolvida com tráfico de sexo, prostituição e pedofilia, tem algumas cenas violentas, desnecessárias – como mostrar detalhe de um dedo de cadáver sendo amputado para impedir o reconhecimento. Mas, comparativamente, é um filme mais leve de David Cronenberg. Explosão de violência, recheada de cenas de revolver o estômago, acontece mesmo é na citada sequência em que Viggo Mortensen luta pelado com dois mafiosos russos dentro de uma sauna. Sequência de puro Cronenberg.


O gângster, o (American gangster, EUA, 2007), de Ridley Scott.  
Aquela famosa frase “baseado em fatos reais” que antecede alguns filmes costumam indicar aqueles eternos clichês do cinema americano. O Gângster não foge disso. Conta a história mais ou menos verdadeira (a gente nunca sabe onde começam as licenças poéticas) do traficante negro Frank Lucas (Denzel Washington). Frank Lucas movimentou milhões de dólares na década de 70 ao comprar heroína e cocaína de traficantes asiáticos, contando com a colaboração de militares que lutavam no Vietnã para fazer a droga entrar nos Estados Unidos. Do outro lado, Richie Roberts (Russel Crowe) é o policial honesto encarregado de investigar esse tráfico. O gângster impressiona mesmo é por tratar de uma realidade muito, muito próxima dos brasileiros: bandidos comandando zonas inteiras da cidade, protegidos pela população que se sentem assistidos por eles, jovens em festas embalados por muita droga, assassinatos a sangue frio por uma simples dívida, e a famosa corrupção policial. O filme anuncia que um terço da polícia de Nova Iorque estava envolvida em casos de corrupção com os traficantes. Só que nos Estados Unidos isso aconteceu na década de 70.

 

Sweeney Todd – o barbeiro demoníaco da Rua Fleet (Sweeney Todd – the demon barber of Fleet Street), de Tim Burton.

Sangue demais. Não combina com musical. Benjamim Barker (Johnny Depp) é um barbeiro na Londres do século XIX que resolve se vingar de uma condenação injusta, perdendo a mulher e a filha nos 15 anos em que ficou preso. Passa a assassinar seus clientes com golpes de navalha. As vítimas servem como ingredientes para as tortas de carne da Sra. Lovett (Helena Bonham Carter), sua cúmplice. Em uma sequência, o barbeiro corta a garganta de meia dúzia de clientes enquanto canta. Nem a parceria até agora sempre elogiável de Tim Burton e Johnny Depp salvam Sweeney Todd. A estética gráfica, noir, do diretor está ficando repetitiva. Mas o meu comentário negativo é por uma questão puramente pessoal: musicais devem ser filmes felizes, com cenas otimistas, carregadas daquela leveza de coração que fazem as pessoas cantar e dançar em filmes. E mesmo os musicais com finais infelizes, como Sapatinhos vermelhos, deixam no ar aquele clima de sonho. Gargantas cortadas com jatos de sangue espirrando! definitivamente, não combina com musicais.

 

Leões e cordeiros (Lions for lambs, EUA, 2007), de Robert Redford.

Pelo menos um bom filme nessa maratona. Leões e cordeiros é daqueles filmes que se deve assistir de novo, anotando frases, prestando mais atenção nos detalhes dos diálogos. O filme é centrado em dois debates. Um senador (Tom Cruise) e uma jornalista (Meryl Streep) discutem as implicações da política intervencionista dos Estados Unidos. O senador tenta convencer a jornalista a publicar uma matéria sobre um plano americano de ataque (já em andamento enquanto eles conversam) no Afeganistão. Aos poucos, a conversa deixa transparecer o eterno jogo de benefícios entre a política e imprensa, mesmo em casos dramáticos como situações de guerra. Paralelamente, um professor universitário (Robert Redford) tenta convencer seu aluno (Andrew Garfield) a voltar a se interessar pelas suas aulas. A ligação entre os debates é o ataque desferido pelos americanos nas montanhas geladas afegãs: dois ex-alunos do professor, da mesma classe do aluno com quem conversa, estão cercados pelas tropas inimigas enquanto os diálogos acontecem. Novamente por questões pessoais, o debate entre o professor e seu aluno me atingiu mais. O idealismo de jovens universitários, a admiração pelo professor, o desencanto por parte dos alunos com o rumo que muitas das aulas tomam, o professor não acreditar na maioria dos alunos e escolher um ou outro como depositário de suas esperanças – até mesmo para justificar seu supervalorizado papel de educador: são situações comuns de quem leciona. Leões e cordeiros  tem um final sintomático sem a pretensão de levantar grandes bandeiras. É um filme para ser revisto com calma. Mas só o fato de assistir a um filme e me sentir parte, só o fato de um filme me fazer pensar um pouco mais sobre as relações discutidas, já torna o filme grande.



Escrito por Robertson Mayrink às 20h53
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Publicidade e futebol (2)

Ao ganhar a Uefa Euro 2008, a Espanha acabou com um jejum de 44 anos sem títulos. O último título conquistado pela fúria espanhola havia sido a própria Eurocopa, em 1964. Os espanhóis nunca foram campeões mundiais, apesar de entrar em algumas edições como favoritos, apresentando um futebol vistoso, entusiasmante. A exemplo da seleção Holandesa, que parece sofrer do mesmo mal, a Espanha acaba eliminada no meio das competições mais importantes.

Inspirada por esse famoso “amarelar”, a Nike, patrocionadora oficial de grandes nomes do futebol mundial, produziu um filme baseado em pesquisas. Opinando sobre esse estigma que persegue o futebol espanhol, torcedores declararam na pesquisa, frases como: “falta sangue”, “não tem orgulho de vestir a camisa vermelha”, “não são unidos”, “falta um líder”.

No filme, jogadores espanhóis da seleção, patrocinados pela Nike (Iniesta, Fabregas, Fernando Torres, Sergio Ramos e Puyol) aparecem tatuando no próprio corpo frases desse tipo. A criação é da agência Villarrosas.

Referência: Brainstorm 9

 



Escrito por Robertson Mayrink às 20h43
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Publicidade e futebol

É uma prática comum entre anunciantes e agências: criar anúncios e filmes antecipados em finais de grandes eventos esportivos. Na maioria das vezes, se criam duas peças: uma festejando a vitória e outra consolando pela derrota. Dessa forma, logo que acaba o evento, um dos anúncios é veiculado.

O anúncio abaixo foi criado pela F/Nazca para a Unimed, patrocionadora do Fluminense, saudando o campeão da Taça Libertadores da América. A LDU do Equador acabou ficando com o título na disputa de pênaltis e o anúncio, assim como a festa da torcida tricolor, teve que ser arquivado.



Escrito por Robertson Mayrink às 20h41
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Novas edições (2)

     

Pelo que vejo nas livrarias, as editoras têm investido muito na reedição de clássicos e autores famosos. Reflexo da crise de novos autores que acomete a arte como um todo?

As reedições ganham com o talento de designers, diretores de arte, editores preocupados com a estética já que o conteúdo é mais do que conhecido e admirado. A Companhia das Letras reina absoluta há 20 anos nesses quesitos estéticos e gráficos: cuidado com a escolha do papel, tipo de letra de leitura leve e agradável, capas atraentes e enigmáticas, dizendo da obra sem revelar o sentido. Ler um bom autor editado pela Companhia das Letras é um prazer completo.

A editora está relançando a obra do argentino Jorge Luis Borges com todo o carinho que o autor merece. O site, inclusive, chama os leitores para uma prática comum na indústria (que vejo pela primeira vez no mercado editorial): recall. O comunicado informa que a edição de O Fazedor apresenta erros tipográficos e que os leitores devem comparecer aos estabelecimentos para a troca dos livros.

Nessa onda de reedições, a Editora 34 ocupa lugar de destaque nas minhas compras atuais. A Editora paulista relançou a obra de Dostoiévski. E sempre que desejo uma leitura garantida, desses livros que ao terminar acho tudo mais bonito, basta recorrer a Dostoiévski. Abaixo, um trecho de A Senhoria, novela que trata da impossibilidade doentia, quase mortal, de duas pessoas concretizarem o amor. Apenas um trecho da beleza universal do autor.

Talvez essa impressionabilidade exacerbada, esse desnudamento e essa desproteção de seus sentimentos tenham se desenvolvido com a solidão; talvez essa impetuosidade do coração, preparada no irremediável silêncio penoso e sufocante de longas noites de insônia, entre anseios inconscientes e inquietações impacientes do espírito, estivesse finalmente prestes a explodir ou a encontrar desafogo; e devia ser isso mesmo, como costuma acontecer bruscamente nos dias tórridos e abafados, em que o céu repentinamente se torna todo negro e a tempestade se derrama em chuva e fogo sobre a terra sedenta, se pendura como pérolas de chuva nos ramos de esmeralda, fustiga a erva, os campos, abate sobre a terra os tenros cálices de flores, para que em seguida, aos primeiros raios do sol, tudo, retornando à vida, se levante, se precipite ao encontro dele e, solenemente, lhe envie no céu o seu incenso doce, luxuriante, regozijando-se e exultando com a renovação de sua vida... Mas Ordínov agora não conseguiria sequer pensar no que se passava com ele: ele mal se reconhecia....



Escrito por Robertson Mayrink às 18h06
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Novas edições

        

A  Editora Cosac Naify lançou, em capas de encher os olhos, dois dos meus livros favoritos: Ana Karenina, de Tolstói, e Moby Dick, de Herman Melville. As edições que tenho em casa são de uma coleção de clássicos lançada há muitos anos pelo Círculo do Livro: capas duras sem ilustrações, cores fortes com títulos e grafismos destacados em letras ouro. Um estilo mais clássico e formal de que sempre gostei muito.

 

As novas edições são tentadoras, mas ao folhear Moby Dick com um olhar mais atento, passado o fascínio inicial da capa, achei um certo exagero no uso de recursos gráficos no início dos capítulos. Pareceu-me uma tentativa de suavizar a densidade da obra como a dizer ao leitor que a leitura ficou mais leve. De qualquer forma, são edições tentadoras, dessas que você pensa uma, duas, três vezes se vale a pena pagar o preço salgado que cobram.   

 



Escrito por Robertson Mayrink às 23h54
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Indústria da mendicância

O jornal O Globo deste domingo, 29 de junho, publica uma matéria de título e subtítulo: “Indústria da mendicância recruta crianças em PE.” “Pais e agenciadores levam menores para pedir dinheiro e roupas nas feiras de Caruaru e de cidades vizinhas.”

Não existe nada de coincidência neste fato com o post que publiquei ontem. Constata o que todos sabem: a exploração infantil, denunciada por João do Rio no início do século XX, nunca deixou de ser praticada no Brasil.

A reportagem, assinada por Letícia Lima, revela que crianças são recrutadas no agreste pernambucano para atuar como pedintes em famosas feiras do Estado.

- A cidade foi invadida por menores pedindo roupas e dinheiro. As crianças eram realmente alugadas. Flagramos uma senhora de idade mendigando com cinco menores – conta a secretária de Ação Social de Santa Cruz, Joselma Bezerra.

É apenas uma pequena matéria, perdida na edição do jornal. Mas revela um fato assustador: basta um jornalista investigar por alguns dias para descobrir essa rede criminosa que conta com a conivência e lucro dos próprios pais das crianças. Se a própria secretária de Ação Social de uma das cidades envolvidas conhece o fato, porque a polícia, a justiça, não investiga e prende os criminosos? A jornalista, cita, no último parágrafo do texto, nomes de pessoas que atuam na exploração infantil.

Moradora de Taguaritinga do Norte (a 164 quilômetros de Recife), Rosilda Maria da Conceição foi flagrada com duas crianças, de 10 anos e de 7 meses. Ela disse no conselho que mendiga “por dinheiro, comida e roupa”, com o consentimento do pai dos menores. Outro caso foi de Luciene de Souza Nascimento, que saiu de Lagoa Grande, no sertão, para pedir esmolas, permitindo que o filho menor fosse “alugado” a terceiros. Ainda segundo documentos do conselho, Luciene disse que, antes de chegar a Santa Cruz, passou por cidades como Arcoverde, Belo Jardim e Caruaru, “para pedir esmolas e tomar cachaça”.



Escrito por Robertson Mayrink às 12h10
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A cidade de João do Rio

Os problemas de cidade grande parecem mesmo sem solução: trânsito, violência, consumo e tráfico de drogas, explosão imobiliária, aquecimento do clima, falta de solidariedade e educação dos moradores. Poderia listar mais, alguns pequenos do dia-a-dia, outros de uma gravidade que caminha para o apocalipse. Não é pessimismo, apenas constatação.

Problemas que foram crescendo sem uma política direta que os combatessem. Percebo isso claramente ao terminar de ler o livro A Alma Encantada das Ruas, reunião de crônicas do jornalista João do Rio (1881/1921), publicadas na imprensa carioca no inicío do século XX.

O autor percorre as ruas da cidade, presídios, “casa de ópio”, prostíbulos, portos, bares, retratando a cidade através de histórias de sua população, quase sempre envoltas em miséria, degradação e falta de esperança. Estou citando os textos que mais me chamaram a atenção, em outros, João do Rio vê a cidade com o olhar do flaneur, perambulando pela noite às vezes deslumbrado com a luz da noite nas calçadas, nomes de ruas, a arquitetura das casas e prédios, praças. “Eu amo a rua. Esse sentimento de natureza toda íntima não vos seria revelado por mim se não julgasse, e razões não tivesse para julgar, que este amor assim absoluto e assim exagerado é partilhado por todos vós.”

Mesmo nas crônicas onde esse olhar amoroso prevalece, João do Rio enxerga os mendigos, os trabalhadores subterrâneos, as crianças exploradas. Reproduzo trechos da crônica Os que começam... que trata desse problema cruel que ninguém tem a coragem e humanidade de combater. Preferem construir prédios, alargar avenidas, distribuir bolsas de caridade, exatamente como fizeram na cidade de João do Rio, como fazem hoje em todas as cidades brasileiras.

Não há decerto exploração mais dolorosa que a das crianças. Os homens, as mulheres ainda pantominam a miséria para lucro próprio. As crianças são lançadas no ofício torpe pelos pais, por criaturas indignas, e crescem com o vício adaptando a curvilínea e acovordada alma da mendicância malandra. Nada mais pavoroso do que este meio em que há adolescentes de dezoito anos e pirralhos de três, garotos amarelos de um lustro de idade e moçoilas púberes sujeitas a todas as passividades. (...) Há no Rio um número considerável de pobrezinhos sacrificados, petizes que andam a guiar senhoras falsamente cegas, punguistas sem proteção, paralíticos, amputados, escrofulosos, gatunos de sacola, apanhadores de pontas de cigarros, crias de famílias necessitadas, simples vagabundos à espera de complacências escabrosas, um mundo vário, o olhar de crime, o broto das árvores que irão obumbrar as galerias da detenção, todo um exército de desbriados e de bandidos, de prostitutas futuras, galopando pela cidade à cata do pão para os exploradores. Interrogados, mentem a princípio, negando; depois exageram as falcatruas e acabam a chorar, contando que são o sustento de uma súcia de criminosos que a polícia não persegue.

(...)

Esse bando, porém, é evidentemente defeituoso; ganha dinheiro, como se estivesse empregado para sustentar a família. Há o outro, o maior, o infindável, que a polícia parece ignorar, a exploração capaz de emocionar os delegados nos dramalhões, a indústria da esmola infantil exercida por um grupo de matronas indignas e de homens criminosos, as criancinhas implumes, piolhentas e sujas, que saem para a rua às varadas, obrigadas ao sustento de casas inteiras; há a exploração lenta, que ensina os pequenos a roubar e as meninas a se prostituírem; o caftismo disfarçado, que espanca, maltrata e extorque. É um vasto tremedal a que a retórica sentimental nada adianta, cujo mal a segurança pública não quer remediar. Basta ter a simples curiosidade para mergulhar nesse caleidoscópio infinito de cenas torturantes de uma mesma ação, basta parar a uma esquina e ouvir a narração dessas tragédias vulgares e de fácil remédio.

O cronista reproduz, então, entrevistas que fez com crianças, as respostas revelam que os maiores criminosos são justamente quem deveria proteger as crianças:

- Quando não arranjo bastante para a madrinha e as filhas, dão-me sovas!

- Quando passo uma semana sem levar nada, põe-me de castigo, com os joelhos em cima do milho e sem comer.

- E o padrasto, que faz?

- Dá pancada na gente quando não se anda direito.

- Hoje tenho que roubar um queijo. Sinhazinha diz que não apareça sem um queijo.

Pelos relatos, essa crueldade já se estende pelas ruas há cerca de 90 anos. Talvez seja próprio da natureza humana: enxergar a miséria infantil com olhar piedoso, doloroso, mas não tomar nenhuma atitude direta para acabar com o problema. Talvez nos próximos 90 anos esse crime seja combatido.    



Escrito por Robertson Mayrink às 11h33
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Cyd Charisse

 

Conversando com uma amiga sobre filmes, percebi que não assisti nada nos últimos dias. E para completar o alheamento destes dias atribulados, só ontem descobri que Cyd Charisse morreu na terça-feira da semana passada, 17 de junho, aos 86 anos.  

Bem, para alegrar um pouco esses dias chatos – sinto-me sempre assim quando me falta tempo para ler e assistir filmes – acabei no YouTube, procurando e achando a mais bela sequência de Cyd Charrisse no cinema, dançando com Gene Kelly em Cantando na chuva (1951). Fácil perceber porque ela foi considerada a atriz e bailarina com as mais belas pernas do cinema.

 



Escrito por Robertson Mayrink às 06h30
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Vida na metrópole

Fiz uma viagem a trabalho esta semana. Fui a Teófilo Otoni, na segunda-feira,  avaliar curso de jornalismo da UNIPAC, pelo Conselho Estadual de Educação. Na volta, sai de Teófilo Otoni terça-feira, às 18 horas, rumando de carro até Governador Valadares. Um percurso tranquilo, apesar da quantidade de caminhões na estrada, graças ao zelo e responsabilidade do motorista do Vectra  que andou macio pela estrada. Percorremos cerca de 140 quilômetros em 1h40.

Às 20 horas, check-in feito, sentei-me no aeroporto de Governador Valadares para esperar o vôo para Belo Horizonte (claro, atrasou). Já sabia pelo celular que o frio finalmente chegara a BH : tirei uma blusa da bolsa e recostei-me na sala de espera folheando uma revista de turismo. Embarquei às 21h15. Foram exatos 35 minutos de vôo até o Aeroporto da Pampulha.  Mais 20 minutos de táxi e pouco depois das dez da noite eu estava abrindo o portão de casa, saudado pelos latidos de Chimena.

Para que vocês entendam onde quero chegar, descontemos o tempo de espera no aeroporto. Contas feitas, gastei em trânsito rovodiário e aéreo por volta de 3 horas, percorrendo  449 km (distância de Teófilo Otoni a Belo Horizonte). Descontando também a ansiedade natural de uma viagem noturna por estrada repleta de caminhões e o pequeno temor dessas aeronaves pequenas, desconfortáveis, barulhentas, parecendo sempre na iminência de uma pane, posso dizer que cheguei em casa cansado mas tranquilo.

Vou resumir a segunda viagem: saí do trabalho hoje exatamente às 17h30, no Bairro Lagoinha. Passei pela Savassi para pegar minha filha, entrei na Contorno, Amazonas, Via Expressa, Bairro Camargos. Um trajeto de 15 quilômetros. O tempo gasto: 1h45. Uma hora e quarenta e cinco minutos! Cheguei em casa um tanto quanto nervoso, sequer prestei atenção na recepção alegre de Chimena.

Gastei nesses meros 15 quilômetros mais tempo do que na viagem de Teófilo Otoni a Governador Valadares.  Nessas horas perdidas em meio a buzinas, fumaça, gritos de motoristas exaltados, manobras irresponsáveis, má-educação generalizada, é que me pergunto  (e creio, devemos nos perguntar todos): para onde caminha a vida nas metrópoles?



Escrito por Robertson Mayrink às 22h08
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Apenas uma história

             - João de Dora...

            O grito foi seguido do clarão de um relâmpago. A bacia de água, pintada de branco fosco com pequenas manchas pretas, estava em cima da cômoda, logo abaixo da janela. Pesada janela de madeira dessas casas do interior, cortada por dois vidros retangulares, colocados lado a lado na parte mais alta. De manhã, os vidros deixavam a claridade entrar, anunciando o dia. Mas nessa noite de tempestade, os clarões relampejavam pelo quarto, intermitentes, como uma forte lâmpada acendendo e apagando na escuridão. João estava debruçado na bacia, lavando o rosto, quando o chamado vindo da rua e o clarão do relâmpago o iluminaram por um instante. Em seguida, voltou a mergulhar na escuridão, nas lembranças.

            - João de Dora...

Maria esperou um instante, olhos voltado para o chão, as mãos brincando com o vestido de pano barato, jeito de mulher tímida que desapareceu quando olhou João direto nos olhos.

 - Nome esquisito você tem. Homem misturado com mulher.

            - É como o pessoal desta cidade chama a gente. João é meu nome de batismo, Dora, minha mãe. Virou João de Dora. Mas é apenas para o pessoal daqui. Onde moro, na capital, é só João.

Pensou em dizer de seu outro nome, João Doramundo, pseudônimo que passou a usar quando publicou seu primeiro romance. Nome famoso no círculo da literatura barata de histórias policiais. Mas Maria era apenas uma jovem do mato, talvez nem soubesse ler. Tinha a graça de quem acaba de sair da adolescência, ainda com aquela ingenuidade de meninas criadas no campo que correm descalças pela grama, as mãos segurando a barra da saia, o sol batendo de frente no rosto, o vento nos cabelos ondulados, agrestes. Foi como João a imaginou, assim que a viu em uma festa na praça, dias depois de chegar à cidade natal para umas “férias”.

            Ele estava cansado. Era o que dizia a amigos após os frequentes copos de uísque e vodka. Cansado de escrever histórias rasteiras que brotavam inspiradas por títulos de filmes: “Um tiro na noite” virou a história de um assassino de aluguel de Cariacica que mata um sindicalista e passa a viver assombrado pelas mortes que cometeu, todas de pessoas que lutavam por um ideal e incomodavam os poderosos. “A testemunha”: em uma noite de bebedeira, uma mulher é estuprada pelo próprio marido na cozinha de sua casa. Com uma imensa faca de cozinha ela mata e retalha o corpo do marido, tudo aos olhos do próprio filho, uma criança que vê os crimes pela fresta da porta.  

            Os livros rendiam a João um dinheiro razoável, do qual nem precisava: ele podia muito bem viver da renda das fazendas de sua mãe, uma poderosa pecuarista que fizera fortuna criando porcos e dominando a política da região. “Taí mais um enredo de historinha policial.” Mas ele estava cansado. Chegava quase todos os dias de madrugada, abria a janela de seu apartamento no Mangabeiras e sentia-se só olhando a cidade. “Acho que estou na crise da meia idade. Deus! Minha vida está virando frases feitas de literatura.”

            Resolveu passar um tempo com a mãe, talvez a volta, o ar do interior, rendesse alguma boa idéia para, finalmente, um livro de verdade. “Uma história de amor, quem sabe”.  Mas há dois meses ele andava pelos campos, pela fazenda, pela cidade e só conseguia pensar em Maria.

            - De onde você é?

            - Ah, deixa pra lá. É um sertão lá pro lado da Bahia, bem na divisa. Seu Ataíde me trouxe de lá, foi pescar. De tardinha, eu ia ao acampamento lavar os pratos, ganhar um dinheiro. Um dia, o pai chamou Ataíde e perguntou se ele não me queria, “leva a menina, é menos uma boca pra comer”. – Ataíde era outro fazendeiro poderoso da região, adversário político da mãe de João. Todo mundo sabia, inclusive a esposa, que ele mantia Maria há mais de dez anos em uma das casas de suas terras.

Maria não parecia se importar muito com esse relato cruel de compra e venda de meninas. Contava sua história sentada na grama, a cabeça recostada nos joelhos dobrados, o vestido curto deixando suas coxas à mostra, as mãos brincando com ramos da grama. Eles conversavam assim quase todo final de tarde. Ataíde só vinha àquelas terras uma vez por semana, João e Maria sentiam-se livres nessas intermitências.

            Em uma dessas tardes, a menina saiu correndo morro acima até debaixo de uma velha e enorme mangueira. Quando João chegou, meio sem fôlego, ela deitou-se na grama, “levantou a sainha e disse mete”. Tudo para ela era assim: natural.

            - João de Dora...

O chamado foi seguido de outro relâmpago. João lavou o suor de seu rosto na bacia. Enxugou-se com uma pequena toalha, vestiu um longo sobretudo. Olhou para o notebock fechado em cima da mesa do quarto. Tudo que ele queria era escrever uma história. De amor, quem sabe.  

            João abriu a porta da frente da casa e saiu. A rua estava deserta e escura. A chuva forte acabara com a energia da cidade. O pistoleiro contratado por Ataíde estava montado à cavalo no meio da rua: um longo chapéu encobria seu rosto, a barba espessa, os olhos sem cor naquela escuridão. Nas mãos, um rifle.

            A luz do relâmpago iluminou a imagem do homem montado em seu cavalo. A chuva batia na aba do chapéu, os olhos frios fixos no adversário, a mão firme no gatilho do rifle, a outra segurando o cano da arma, o cavalo imóvel, cabeça erguida, pesadas gotas de chuva repicavam na calçada. Os segundos passavam, o tempo iluminado por um ou outro clarão, até o prevísivel momento final.

            "É uma boa história". Pensou João Doramundo.  

Escrito por Robertson Mayrink às 18h06
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